terça-feira, 16 de junho de 2009

Maputo

A capital moçambicana tem, actualmente, mais de um milhão de habitantes - quase dois contando com a periferia - mas em toda a área central é possível sentir o curso da vida sem a pressão e os atropelos característicos de uma grande cidade. O quotidiano das ruas é um testemunho exemplar da luta pela sobrevivência da gente moçambicana, uma multidão de vendedores ambulantes expõe sobre os passeios ou carrega uma variedade de mercadorias que respondem a quase todas as necessidades, tanto dos turistas como dos moçambicanos, desde fruta tropical, carregadores de telemóvel, artesanato, relógios de marcas famosas em contrafacção, roupas, caju torrado, etc. Se formos a ver, este é o sustento de grande número de famílias e é o que confere à cidade uma animação permanente.


Ontem, para variar um bocado a rotina que já temos em Moçambique, eu e o Guedes resolvemos dar uma volta por Maputo, só mesmo para tentar conhecer mais esta bela cidade parada no tempo. Pegámos no "Picacho" e lá fomos nós desde a baixa até à costa do Sol. Começámos por ir comprar peixe e algum do tão apetecido camarão-tigre no Mercado do Peixe, onde fomos logo rodeados de vendedores, cada um a pregar o "maior, melhor e o mais fresco"! O tamanho conta, mas a prova dos nove é da competência das papilas gustativas, por isso tentámos escolher o melhor que podiamos ... e depois logo se vê, imaginam dois homens a comprar peixe. Posso dizer que para já escolhemos bem o camarão, porque ficámos de barriga cheia ao jantar.


E lá fomos nós pela Marginal, uma avenida que tem fama, proveito e estatuto para início ou fim das noites mais agitadas de Maputo ... e muito devagar fomos apreciando a praia, a sentir o cheiro da maresia salgada. Demos uma volta pelo conhecido e histórico restaurante Costa do Sol, activo desde a década de 30, onde se pode provar o belo do marisco. Voltámos à estrada por pouco metros ... e nova paragem para aproveitar a praia, sentir a areia e molhar as mãos nas águas cristalinas. Durante o passeio ainda tirámos umas fotos a alguns pescadores que atracavam o barco, e outros tantos que procuravam ameijoas e outros crostácios na maré baixa.


Acabando a Marginal chegamos à baixa, onde deparamos com uma cidade parada no tempo, mais precisamente nos anos 20 ou 30 (tentei pesquisar e ainda não tenho a certeza). Muitos edifícios inspiram uma época esquecida, basta ver o estado de degradação de muitas destas preciosidades arquitectónicas. Podemos ainda encontrar muitos pontos turísticos - o itinerário começou pela velha Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, que conserva no interior alguns canhões e outros elementos do tempo colonial, além de uma estátua de Mouzinho de Albuquerque. Junto à Fortaleza tentámos encontrar o grande mercado de artesanato que fica na Praça 25 de Junho, mas logo descobrimos que só tem lugar aos sábados - nada de preocupante, vamos lá este fim de semana. Passámos ainda pela estação ferroviária, pelo edifício dos correios, pelos inúmeros cinemas que noutros tempos estariam com filas de público ávido de teatro e cinema. Acabámos com uma vista de olhos pela Câmara Municipal e a imponente Catedral de Maputo, onde o tempo relembrou a hora de almoço ... para depois (infelizmente) irmos trabalhar.

Foi uma manhã fora da rotina e mesmo sete meses depois de ter chegado, Maputo ainda me deslumbra tanto pela história (presente em praticamente todas as ruas), como também pela hospitalidade do espaço e das pessoas, quase sempre com um sorriso à flor dos lábios, fazendo de Maputo uma das cidades mais agradáveis de África.


quinta-feira, 11 de junho de 2009

Zambia

Mais uma viagem feita, desta vez para a Zambia, para a cobertura do jogo da selecção da Zambia contra o Ruanda. Acompanhado por dois alunos da Zap, o Sandro e o Cossa, fiz a viagem de avião, enquanto a produtora e um dos motoristas, a Páscoa e o Keith, foram no carro de feixes numa longa viagem de quatro dias. Juntos fomos ter com a equipa que veio de Portugal e juntos fizemos o jogo em directo para a Sport Five.


Tivemos quatro dias em Kitwe (pelo menos a dormir), uma cidade a 50 km de Ndola, a segunda maior cidade da Zambia e onde aterrei na quinta-feira. O jogo foi em Chililabombwe, uma pequena cidade a 80 km de Kitwe, e correu bem - a equipa fez um bom trabalho, principalmente o pessoal da Zap, o que nos deixou muito orgulhos. Com muitas viagens à mistura, na traseira de pick-ups, passámos grandes momentos! Não só nas viagens e no jogo, como nas voltas turísticas que fizemos a Kitwe, conseguindo visitá-la praticamente toda. Até fomos à feira, onde comprei uns belos ténis da Caterpilar. Não posso dizer que a Zambia seja um país bonito, pelo menos da parte que conheci. Como é óbvio, a Zambia tem parques naturais lindíssimos, mas pelo menos os locais que vi não tinham grande beleza natural ... até porque a região onde ficámos é rica em cobre, daí praticamente só se ver no horizonte grandes fábricas, pertencentes a enormes minas, não é por acaso que a Zambia é um dos maiores produtores de cobre.



Por um lado até gostei de ver esta indústria toda. Nada em Portugal é comparavel às áreas que estas minas têm, só se vê montanhas de cobre feitas pelo homem, grandes camiões da Caterpilar, daqueles que só se vê no National Geographic, a carregarem o precioso minério em estradas de terra batida que mais parecem auto-estradas de três faixas! É tal a movimentação de camiões enormes que para fazer 80 km demorámos três horas, mas valeu a pena ... nem que seja para acenar às pessoas que na beira da estrada e nos outros carros nos acenam só por estarmos a passar. Parecia que toda a gente sabia que vinhamos filmar o jogo da selecção! Até nos check point da polícia - que mais parecia o comboio Lisboa-Porto com paragem em todas as estações e apiadeiros, de quinze em quinze quilómetros - nada de preocupante aconteceu! Aliás, todos foram simpáticos ainda antes de dizermos de íamos filmar a selecção ... imaginem, então, depois de dizermos - só queriam abraços e apertos de mão, para logo de seguida nos desejarem boa viagem e um viva a Zambia.


Foi uma das coisas que mais me marcou nesta viagem: a simpatia do povo zambiano, em qualquer lado por onde passavamos, as pessoas cumprimentavam-nos, os putos corriam atrás das pick ups, perguntavam de onde vinhamos, arranjavam sempre maneira de meter conversa connosco, o que até era fácil porque a língua oficial é o inglês. Correu tudo bem, toda a gente se deu bem, deu para curtir muito entre trabalho e lazer, gargalhadas e noitadas a conversar ... partimos na segunda-feira a pensar que não esqueceremos facilmente esta viagem. Pelo menos alguns não se vão esquecer das partidas como açucar na cama e sal na cerveja! Sabem como é, quem está comigo tem de se precaver ... e como os alunos ainda não foram praxados, tive a honra de lhes fazer a vida negra. Até no avião a caminho de Maputo houve porcaria, só podia! Foi a única vez que o Sandro e o Cossa tentaram alguma coisa contra mim e o resultado foi as hospedeiras a interrogarem-se o que é que estaria nas coca-colas que nós não bebemos . Posso dizer que só acabou quando aterramos em Maputo ... na segunda-feira à noite.